quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Parte de Mim

(Tela de P.Picasso)


Parte em mim acredita
Parte em mim morreu
Parte em mim mistifica
Parte em mim já cresceu
E de partes em partes se montam vitrais
da arte em vidro tão frágeis sinais
se movem caleidoscopicamente nos ares
partes das partes dos pares

Cara-metades, cara-retalhos, cara-farelos
me encaram armadas todas patentes do meu flagelo
Se ofuscando, me limitando a ser pedaços
Partes que em mim se buscam, partes que em mim desatam
Parte em mim me toca
Parte em mim me trai
Parte em mim concentra
Parte em mim distrai

Parte do que é parte
Parte do que é de mais
Parte da parte do outro
Parte da arte que jaz
Pensamentos que voam disléxicos em plena luz do dia
Castidade, exílios, complexos planos suicidas
Nada do que é concreto, do que é exato, do que é bonito
Apenas o corpo em frangalhos, o grito no espaço, o desconhecido

Parte do que é amor
Parte do que é esquisito
Parte do que me corrói
Parte do que me divido
Tudo que em mim faz parte da parte de mim que não satisfaz
Deixa meu corpo mais tarde e parte pra sempre num flash de paz
Quando o escuro revolve e o tiro é certo num leito fugaz
Parte das partes em sopro de um sonho inteiro que nunca, jamais.


Isa Blue

domingo, 10 de agosto de 2014

Pe da ços



Se não tinha nada a ver você me chamar
por que você me chamou?
Se eu ando na rua só pra te encontrar
por que não sei aonde vou?
Há tanto pensamento no ar
coisas que não servem pra dizer
histórias que eu quero contar
pedaços ausentes de você

Se não tem nada a ver me contar
por que você me deixa saber?
Por que você me deixa insegura
se me ama e me quer pra você?
Há tantas coisas na minha cabeça
parece que estou de chapéu
moscas que quero espantar
pedaços ausentes do céu

Se você quer a felicidade integral
por que não procura por ela?
Por que você deixa as minhas lágrimas
borrarem toda a aquarela?
Há tantas coisas que não fazem sentido
eu gosto das coisas assim
tudo o que eu sinto eu perco
pedaços ausentes de mim


Isa Blue

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Quase

(tela de Lora Zombie)


Quase

É preciso ouvir os seus sussurros
quando o silêncio nos aflige ao quase máximo
É preciso se descer do grande muro
para evidenciar nossos naufrágios.

Se segue o tempo e a sua cortina de fumaça
Na sua vida nada se entrega ou se estraga
Não podemos deixar o tempo nos dizer
o que temos que sentir, como temos que ser.

Não há tempo de ferir a madrugada;
precisamos enxugar as nossas mágoas
não há mais que o silêncio no meu quarto
se perdendo nos gemidos do teclado.

É difícil acompanhar o pensamento
se elevando por detrás dos cães sarnentos
se estamos todos sãos e quase salvos
só me diga onde está a flecha e o alvo.

Em você não há pinturas de guerra
há somente a minha e a tua boca aberta
pra livrar a gente do temor que corre
sobre os trilhos de quem ama e nunca morre.

Não há nada de tão lento no destino,
há somente o medo isento de princípios
A vontade de afastar os seus exércitos
e o outro lado entre o longe e o quase perto.


Isa Blue

domingo, 1 de junho de 2014

Nublado



É estranho.
Acordar nublado com o tempo.
E tão coerente todas as coisas de fora.
E tão incoerente todas as coisas de dentro.
É tudo assim, estranho.

Todas as vezes que senti o tempo nos últimos três anos.
Todas as vezes que me senti o último em três tempos.
Mas não me engano. Não, isso eu já parei de fazer.
Deixamos que o tempo acobertasse um sentimento
sem pedir licença ou consentimento.
E, se esquecemos por um momento a verdadeira cara do tempo,
é que não fomos cuidadosos o suficiente.

Deficientimos muito.
O tempo que rouba nossas ciências, nossas explicações
e nossas justificativas que nada significam para nós.

Bastamos olhar.
Que olhando nós procuramos enxergar e sabemos que estão lá
as mesmas respostas que nos procuram sem encontrar.

Isa Blue

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Velhice



Velhice

Cada vez menos tempo no relógio
tiquetaqueando ameaçadoramente
Não é a vida que escolhemos,
é a vida que nos escolhe
e as nossas não-escolhas
que nos assombram pra sempre

Cada vez menos momentos de festa
ziguezagueando sorumbaticamente
Se enfim nos encontramos
muito menos nos perdemos
e quanto mais procuramos
mais no fundo de repente

Cada vez mais rugas no rosto
zunzunzando no sorriso da gente
Corta lá, puxa ali
traz pra cá, pinta aqui
vitrines de embustes
esforços inúteis
antes de cair inevitavelmente

Cada vez mais coisas pra esquecer
tintilando na cabeça doente
a conta, a cota, a porta
o ente, o dente, o rosto
O tempo em nós como bomba
vestindo-nos em sua roupa
assustadoramente


Isa Blue

terça-feira, 22 de abril de 2014

Dama da Noite


Vagando pelas sombras no curto espaço entre si e a eternidade, ela estava em flor e procurava um ser que a encontrasse.
Seguia a lua brilhante e conversava com o vento que arrepiava suas entranhas quando puxava sua crina selvagem. Na carne ela sentia o desejo, a fome. Na pele, subindo pelo seu sangue. Ela fervia a febre em seu rosto suado e expulsava o vazio em seu peito, querendo pulsar demônios pela boca.
Estava tão nua de si que o vestido vermelho podia ser sua pele. Desejava como um animal no cio, cegamente, deseja qualquer macho que esteja à sua frente.
Mas ela não encontrou machos, apenas esses agonizantes pombos de terno e gravata, presos nas correntes de uma sociedade que não conhecia a sua febre de ser tocada e possuída, primeiro pelas beiradas, como se prova um sorvete, depois, com fome de bicho que mastiga sua última refeição.
Talvez ela tenha achado que o mar pudesse lhe acariciar e lhe bater como ela precisava, talvez ela tenha sido enfeitiçada por um tritão, quem sabe. O vestido vermelho foi encontrado sobre as areias. E seu corpo se desfez nas águas orgásmicas do mar.

Isa Blue

segunda-feira, 3 de março de 2014

Página no Face

Amigos, estou também com uma página do Facebook, homônima do primeiro livro, onde posto...bem, tudo aquilo que vocês já sabem.
O endereço é: https://www.facebook.com/osimpublicaveisdeisablue


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

OS IMPUBLICÁVEIS

Os Impublicáveis de Isa Blue - meu primeiro livro a ser lançado em versão impressa e versão digital - está disponível para compra no Mercado Livre (cartão, depósito, transferência, boleto, massagem de ego, etc.), através do link:
 http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-534973480-e-book-os-impublicaveis-de-isa-blue-_JM
Ou por e-mail, através de depósito bancário: isapunkblue@gmail.com



Dados técnicos:
VERSÃO EBOOK
Formato: pdf
59 páginas
Gênero: Poesia & Poesia em prosa
Prefácio: Beatriz Provasi
Capa: inclusa, com textos de orelha
Recebimento: por e-mail


OBS: Para comprar o livro em versão física, apenas pelo link (com desconto até dia 20/janeiro): https://agbook.com.br/book/128487--OS_IMPUBLICAVEIS_DE_ISA_BLUE

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Poema Nu

(foto: Marcha das Vadias pelo mundo)


O rei está nu
e também o poema
porque a nudez é o órgão
da natura-essência
um poema com o pau pra fora
não tem pena de si mesmo
quer ser momento-agora
tapa que cala o beijo
O pudor pode aposentar
se somos todos iguais
olhos parados no tempo
só giram o mundo pra trás
A liberdade é o escudo
quando o resto pereceu
Se meu corpo te incomoda
você tem um problema, não eu.


Isa Blue

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Entre o Céu e a Terra






"Já era",
ela pensou.
Quando a corda no seu pescoço apertou
e seus pés não encontraram onde se apoiar
se arrependeu quando viu que não tinha mais jeito
e só por um momento pensou em poder voltar
Não podia.
Mas não demorou a asfixia
e seus pensamentos silenciaram com um apito
Sentiu seu pescoço inchado, corpo em delito
até um viu arroxeado com os olhos de fora
Agora tudo que via era a luz quente
seu corpo pendurado entre o céu e a terra
e um prazer de sentir-se em paz finalmente.
Não demora.
Quando perguntada se queria voltar
sem pensar, sem poder se lembrar como era
respondeu que queria,
e lá jogou fora toda sua vida vazia
e todas as dores de antigas histórias
como se vivesse na escuridão

sempre com a impressão metafórica
de que seus pés não tocavam o chão
sempre com a expressão de quem chora
e não consegue ter a paz de volta.


Isa Blue

sábado, 7 de setembro de 2013

Memorial de Lilia

Em agradecimento à Thamar por ter me dado o prazer de ler o seu fabuloso livro. Conheçam:


Matemática

Eu tive hoje duas alegrias.
[Não foram felicidade.
Felicidade é outra coisa.]
E tive uma tristeza profunda.
Portanto, longe de declarar-se empate.

A tristeza ganha da alegria,
pois a quantidade que conta,
nesta inexata matemática,
não é a numérica,
é a sentida.

Mas quem sabe, amanhã,
o placar não muda?
Tristeza profunda tem disso:
faz a gente enxergar
o que nunca antes havia visto.

Portanto, há grandes chances
de mudar o jogo, de virar a maré.
E eu terminar o meu dia,
com vinte alegrias no bolso,
e uma tristeza pequenininha no pé.


Thamar de Araujo Gaiser, em "Memorial de Lilia".

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Do formato da noite...





Good Night tem um bright
um star shine
que o Boa Noite não tem
O que é Boa é diurno
é amarelo taciturno
é um sufoco também
Bon Nuit é sutil
é aquilo que acaba
antes da noite acabar
Como desejasse bons sonhos,
num suspiro de abandono
é a hora de deitar
Gute Nacht é ardente
arranha a garganta
na hora de falar
Parece uma ofensa
que numa noite tão linda
não sabe se encaixar
Por isso eu digo Good Night
porque vejo as estrelas
de Bilac me chamarem
Mas se eu digo Bom Dia
eu vejo a alegria
das palavras me inundarem
Curto e sucinto como o sol
E todas as palavras que sinto
num instante de arrebol.


Isa star shine Blue

terça-feira, 26 de março de 2013

Ensaio sobre a eternidade do que é terno





E ao andar devagar
deixando as mãos se esbarrarem
achamos nas coisas simples
um prenúncio de eternidade
será que vem do que é terno?
Desde que sincero
ainda que a gente não tenha percebido logo de cara
mas as bocas já estavam ocupadas no céu do outro
de todas as línguas que a gente não fala
e só silenciam
mas que seriam úteis para se comunicar em códigos
desde que nada penais
apenas nuvens
criptografadas
mas sempre existe um meio
de inspecionar o elemento
sem que se desconfie da autoria do sentimento
porque, na dúvida, a gente acha que é mentira
e está sempre procurando um jeito
desde que nada sério
de avaliar sentimentos certeiros e errantes,
confesso,
no palco das ilusões e inexatas mediúnicas
que, trocando em miúdos,
pode mesmo ser uma pequena pulga
ou uma pequena prova de recuperação de química
numa segunda-feira pós feriado
Desde que todo esse retrocesso
cesse mesmo as penas
As penas da galinha dos ovos de ouro
E, em nenhum momento,
se desconfie com tanta verdade
que deixe de deixar que as mãos se esbarrem
livremente
pelo céu que elas escolherem penetrar nossos íntimos
olhos pra dentro de nenhum lugar
E tudo se fora
É tudo fora
fora todo o resto.


Isa Blue

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O primeiro Eu Te Amo




O primeiro eu te amo é como se estivéssemos perdendo a virgindade de novo. É tão aliviante quanto se tivesse se livrado do jantar com a sogra, como se tivesse dado de cara com a morte ou como se tivesse acabado de jogar fora a ponta quando a patrulinha passou.
O primeiro eu te amo é tão difícil quanto tirar um elefante de um fusca, é tão difícil quanto terminar um livro bom, quanto dar a volta ao mundo andando de ré.
O primeiro eu te amo é tão chato que parece panqueca, é tão chato quanto contar carneirinhos ou ficar na fila da CAIXA em pleno horário de almoço.
O primeiro eu te amo é tão tenso quanto ficar de recuperação em Matemática, quanto tiroteio no Zuzu Angel, quanto ser avisado de última hora de uma reunião com o chefe do chefe do seu chefe.
O primeiro eu te amo só falta doer. Quando você diz, pensa: "ufa, já foi!". Mas pior que o primeiro eu te amo, só mesmo o último.



Isa Blue

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Reflexo N'água

Ando meio parada com os textos e, consequentemente, com o blog por conta da falta de tempo. O mesmo mal que acaba acometendo todos os blogueiros em determinado momento da vida adulta. Por isso fiz o site, que é mais estável, não precisando de atualizações constantes.
No entanto, nos meus arquivos há bastante texto pendente de postagem. O problema é selecionar qual o texto que deve ser publicado no blog, qual o texto que eu vou postar no facebook, qual o texto que está no site e qual será publicado no próximo livro como "inédito". Sim, há um novo livro vindo cujo nome não será divulgado até sua data de lançamento. É um novo projeto que será lançado pela agbook, assim como o outro, e poderá ser adquirido em versão ebook também. Ele apresenta um formato bacana e tenho certeza que vocês vão gostar. Terá vários poemas inéditos, outros que já foram publicados aqui, mas apresentados sob uma forma diferente que dá junta à obra. O livro está na fase de finalização e logo vocês poderão conferir aqui.


Abaixo, é uma letra das muitas que fiz na adolescência. Eu gostava muito de abordar essa temática fictícia, mas a composição nem sempre ficava legal. Essa foi uma exceção e por isso merece seu cantinho no blog:


REFLEXO N'ÁGUA
(Isa Blue)


Existe em um mundo distante
Noutra galáxia, noutro Sistema Solar
Um planeta em que se vive assim
Respirando o mesmo tipo de ar
Baseado em tantas teorias
Creio que exista cada um de nós por lá
Avançando na tecnologia
talvez um dia possamos encontrar

Esse planeta estranho
Que promete descobertas vigorosas
pro bem da consciência
Esse planeta estranho
Que aflige qualquer um
pensando ter um clone ou talvez ser
Nesse planeta estranho
Será que as pessoas cometem os mesmos erros
ou há chance de acertar?
Nesse planeta estranho
Podia ser tudo igual
como um espelho intraestelar
Como um reflexo n'água!
Como um reflexo n'água!

Existe uma contradição, pra ser claro
que tudo que fizemos de errado
lá eles fazem o certo, isso é raro
Talvez um dia possamos ser achados!


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

NOVO SITE


Amigos, venham conhecer o meu novo site: http://isapunkblue.wix.com/isapunkblue

Lá você encontrará meus textos, vídeos, galeria de imagens, trabalhos, fotopoemas, poemas falados, etc.


Mas este blog continuará a receber conteúdo mensal ou quinzenal,
dependendo da disponibilidade.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Poema AutoBlueográfico





Ser Feliz de um jeito Blue

ser blue é ser incuravelmente sem
quando os pássaros azuis gritam as madrugadas
o vento corta as cortinas da sala
e um ventilador que gira gigante
sobre o quarto vazio
nas suas paredes escuras notar
a marca das águas passadas
ser blue é entender a solidão como uma companheira
é encontrar na noite uma feiticeira branca
e compartilhar delírios de sangue
entortar a rua pra caber nos seus olhos
já não ver o buraco do peito por sê-lo sigilosamente
é voltar os seus braços para quem precisa
e saber que desse abraço não tirará
nenhuma forma de vida
entornar suas mágoas no papel
e vê-las saírem voando como pombas
encontrar suas mágoas cagando numa esquina
em cima de um poste de luz
um jeito de ser o inverso e o inequívoco universo
em verso e incrível
as dúvidas são todas as minhas certezas
um seio sobre a mão e o improviso
que de um jeito ou do mesmo
nasceu pra ser sozinho
convivendo consigo apenas por mérito próprio
ser blue e ser feliz de modo
a ser míope e sem foco
viver de modo à moda ser modo
e o como ser logo
porque de azul é feito o vôo das gaivotas
de azul é o lento e simples e primaveris brisas
que é de soprar isas
pra refrescar seus risos



Isa Blue

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Teatro de Sombras



Eu conheci uma sombra. O nome dela era Leko. Eu dizia a ela que adorava o nome dela, que outros desprezavam. E descobri que podia conversar com as sombras e não apenas assisti-las em seu teatro. Eu tinha um teatro de sombras no meu quarto.
Quando beijei Leko pela primeira vez, foi um beijo técnico. Pudera, tinha um vidro nos separando. Leko disse que era feito de cristais muito frágeis de algas marinhas.
Quando toquei Leko pela primeira vez, foi por cima do vidro. Tinha a ponta dos dedos macia. Mas cada vez que o tocava por cima do vidro, era uma vez a menos que nos veríamos, pois ele foi feito, como todos, para se decompor.
Nós não podíamos ficar juntos porque eu não era uma sombra. Mas, para isso, existiam os sonhos.



Isa Blue.

descrição de um sonho com Teatro de Sombras.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Uma nota por um desabafo



Hoje eu resolvi postar uma coisa diferente. Não é um conto, não é uma crônica, menos ainda um poema. É um desabafo. Daqueles que periodicamente saem de mim como se tivesse tomado um litro de chá de boldo.



Uma Nota Por Um Desabafo

Não me entenda mal. Eu gosto de batata-frita e de cerveja. Eu gosto de sentar em uma roda de amigos. Eu só não posso é ouvir alguém dizer como eu tenho que ser ou me portar, por que tipo de gente eu devo me passar, é dividir meu tempo com alguém que diz que apoia a ditadura porque os jovens não têm limites que os pais não souberam dar e por isso quem deve dar é o governo.
Eu não posso dividir minha vida com alguém que acha que o dinheiro é tudo. Quando eu tenho certeza que o dinheiro não é nada, apenas a peça de um jogo que está na moda. Eu não vou abaixar a cabeça. Porque eu já abaixei muitas vezes e hoje eu não me conformo mais em ser apenas passiva e dizer "você está bêbada" ou apenas me livrar de alguém que não sabe o que diz. Porque eu já estou cansada de gente que não sabe o que diz. Eu não tenho que levar toda a verdade do mundo nos ombros. Só tenho 26 anos. Quero discutir com pessoas inteligentes e evoluídas e, sinto muito, não vou me prestar mais ao papel de ser "a amiguinha" ou "a filha da amiguinha" de uma geração ultrapassada que não aprendeu porra nenhuma da vida!!! A vida não é o Sistema. Seu caráter, sua ética não são o Sistema. Você vai sair daqui e levar O QUE consigo?
Hoje eu saí daquela mesa e levei uma dúvida. E cada um que saiu daquela mesa levou um tapa na cara. Porque eu caguei de verdade pra quem você é, chefe de quem, quanto você ganha. Eu caguei muito pro que você fez quando estava duro, pra quantos você deu o cu. E eu caguei principalmente vinte quilos pra sua ideia do que é importante.
Só porque você comprou vinte sandálias de pano só para não ter que lavar e as achou "descartáveis". Só porque você acha que as socialites vão se interessar se alguém resolver produzir aniversários de cachorros. Só porque você acha que o mundo vai durar pra sempre exatamente como você conhece. Só porque você acha que sabe mais do mundo do que qualquer pessoa à sua volta, porque o seu senso crítico ainda está parado nas lutas trabalhistas dos anos 70, as quais você só entrou de gaiato porque era só uma adolescente filha de militar e ai de você se se juntasse com aqueles rebeldes.
E eu somente deixo você achar que eu um dia vou me importar uma unha com o tempo que você gastou tentando me convencer que a vida é esse campo de guerra que você plantou. Às vezes é. Mas não tem que ser. Mas eu não digo que nunca vai ser ou pra sempre vai ser porque não sou hipócrita. Eu acredito na escolha. E não vai ser você nem ninguém que vai me dizer no que acreditar.
E ainda assim, estando com muita raiva, eu te disse tudo isso num tom sério e sereno, tanto quanto meu idealismo me permite, e vi as caras de riso das pessoas ao seu lado, e vi seu olhar mudar de direção. Mas eu tomo pra mim que quando seu olhar muda de direção, ele olha por um novo caminho. E quem sabe isso, um dia, irá te fazer, acidentalmente, enxergar melhor.Eu posso despertar a raiva de todas as pessoas ao seu redor. Eu posso ser jogada na zona de conflito para sempre. Mas eu não estou em guerra com o mundo. Eu estou apaixonada por ele.

Isa Blue

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Diálogos

Conversando com minha avó, na cozinha, aos seis anos de idade:
- Eu tenho imaginação fértil.

- Você sabe o que quer dizer "fértil"?
- Sei. Quer dizer que eu penso muita merda.















- Eu nunca quis me casar.
- Vai ver você nunca encontrou a pessoa certa.
- Na verdade, eu acho que eu que não sou a pessoa certa.














- Fofinha, fofinha...
Olho pro lado.
- Como é seu nome que eu esqueci?
- Isa.
.
- É porque eu sou péssimo em decorar nomes. Não consigo. Posso te chamar de Fofinha?

- Não.
- Posso te chamar do quê então?
- Isa.
























sexta-feira, 13 de julho de 2012

Uma Vez Por Ano, Sempre No Outono...

Sabe aquela sensação de abrir o armário e desesperadamente constatar que "EU NÃO TENHO ROUPA!!!", mesmo que qualquer um seja capaz de ver centenas de peças nos mais variados estilos?? Hoje, quando abri minha pasta de poesia me senti assim "EU NÃO TENHO POEMA!!!". Andei reduzindo a produção porque as boas ideias andam me sacaneando, elas me acontecem quando estou quase dormindo, e o cansaço tem feito eu priorizar meu sono. Mas acabei encontrando um poema para suprir minhas exigências, praticamente saído do forno (ou do gelo):










Uma vez por ano
sempre no outono
o azul é triste
é um blues triste
com um pássaro
preso numa tuba
Uma vez por ano
sempre no outono
as folhas apodrecem
poemas inteiros
há o medo certeiro
e os mortos saem das tumbas
Uma vez por ano
sempre no outono
há um poço sem fundo
onde eu me perco
há um grito preso
e a noite é mais escura
Uma vez no outono
todos, todos os anos
deflagro passados
remonto mosaicos
e sempre sozinha
encontro a cura.


Isa Blue

domingo, 24 de junho de 2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Fotopoemas

Mais uma leva de FOTOPOEMAS para o blog. Degustem!
Para ver a imagem ampliada, clique sobre ela.









terça-feira, 19 de junho de 2012

Fotopoemas

Dando continuidade aos FOTOPOEMAS, hoje publico mais três da minha coleção:
Para ver a imagem ampliada, clique sobre ela.











quarta-feira, 13 de junho de 2012

Fotopoemas

A partir de hoje estarei postando uma série de FOTOPOEMAS meus e de outros poetas feitos por mim em momentos de descontração apenas como meio de divulgação da arte pela imagem, sem nenhuma pretensão de ser um trabalho profissional.
Se você é poeta e quer ter seu poema nessa série, envie o texto para o e-mail: isa.blue@bol.com.br que farei uma seleção. Poemas longos podem sofrer recortes. Para visualizar as imagens em tamanho maior, clique sobre elas.
Bjos Blues,










terça-feira, 8 de maio de 2012

LANÇAMENTO - OS IMPUBLICÁVEIS DE ISA BLUE (e-book)



Hoje é um dia muito mais do que especial. Hoje está indo ao ar a minha primeira obra poética: OS IMPUBLICÁVEIS DE ISA BLUE. Filho de um processo de amadurecimento na poesia e na prosa, já apresenta a marca do meu trabalho: a densidade do texto associada a uma imagem urbana e contemporânea.
Quem conhece este blog ou conhece meu trabalho por contato pessoal, sabe que minha poesia não é distração. E assim é a receita deste livro: altas doses de humor-negro, sarcasmo, ironia em uma profunda crítica social. E também a leveza de um pássaro azul. E também a ressaca do dia seguinte. E também a loucura, e também o espanto. Mas sem nunca recorrer ao que já está batido.
Ferreira Gullar diz que é preciso olhar as coisas sempre com um primeiro olhar.
Te desafio a dar uma primeira olhada nesse livro e cada olhada posterior ainda será uma primeira, porque a poesia é feita dessa matéria mágica, que muda conforme a gente muda.




Você pode adquiri-lo pelo site abaixo:

(certifique-se de estar selecionando a opção e-book)

http://www.agbooks.com.br/book/128487--OS_IMPUBLICAVEIS_DE_ISA_BLUE


e deixe um comentário!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Revidando

Mais uma letra que eu comecei a fazer há longos anos e incrementei recentemente. Lembrei de uma letra do Leão Leibovich que diz "Você pra mim é um problema seu, é um problema seu, é um problema seu...". E nem posso dizer que foi inspirada nela porque comecei a fazer essa com uns 19 anos.





Revidar

Eu tenho que deixar de bobeira
Parar de levar tudo na brincadeira
Agora vou mudar meu instinto zen
E parar de coincidir com os bons costumes

Você disse que assim não dá pra ser
Você quer que eu mude ou vou me dar mal
Se acha que eu me importo com você
Vamos ver quem vai rir no final.

Não to nem aí, Não vou me transgredir
só pra não ferir as regras
se eu não revidar vou deixar-me usar
tenho que pegar as rédeas.

Minha cabeça já está cheia de besteiras
O que penso e não digo fica em mim
Eu estou pra explodir, estou lhe dizendo,
precavendo que eu nunca fui assim.

Não acredito mais nas suas mentiras
Não quero mais te ver a me cercar
Se você acha que eu ainda dou a mínima
Paga pra ver quem vai sobrar.

Não to nem aí, Não vou me transgredir
só pra não ferir as regras
se eu não revidar vou deixar-me usar
tenho que pegar as rédeas.

Você disse que assim não dá pra ser
Você quer que eu mude ou vou me dar mal
Se acha que eu me importo com você
Vamos ver quem vai rir no final.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

OURO DE TOLO

Ainda na onda musical (tem muita letra aqui gisuisss!!!), posto uma que comecei há longos dez anos (pelo menos) e terminei por esses dias.





Ouro de Tolo


Eu desejo que caia na sua cabeça
Uma tonelada de dólares
tijolos de tamanho e peso
nada além de tijolos


Eu desejo que sua vida seja
um poço sem fundo de desejos
E que gaste seus profundos pedidos
com um futuro negro


Você nunca soube viver
E gasta seu sempre tentando
Você nunca sabe o que tem
E perde seu tempo gastando


Eu desejo que caia na sua cabeça
um elefante de ouro
ouro de tamanho e peso
ouro de tolo


Você não tem saída
seu cérebro é carne moída
Afogue-se com suas moedas
seu dinheiro não me interessa


Você nunca soube viver
E gasta seu sempre tentando
Você nunca sabe o que tem
E perde seu tempo gastando



Isa Blue

sexta-feira, 23 de março de 2012

LIBERTAR (rap)

Bem, como eu estou num momento musical, vou postar outra letra, esse é um rap que fiz recentemente falando do amor livre.
Lembrando que "o amor é livre, mas não é grátis." (Isa Blue)

(A imagem é uma foto do beijaço GLBT que aconteceu em protesto durante a passagem do Papa em Barcelona.)




LIBERTAR


Antes de te conhecer
te disse, eu já te olhava
Bastou você corresponder
e tudo virou mágica
Sua história pra me refazer
numa cortina de fumaça
deixamos a fome crescer
e ser alimentada

Somos vício,
tudo que você quis desde o início
Somos quente,
e não há nada que pare a gente
Somos máquina,
alimentada à fumaça
Eu sei tudo que se passa
não precisa fazer graça
Ah, eu sou vacinada
muito bem esclarecida
Se tô aqui é pra agora
eu não faço fita
e tô inteira
mesmo que seja só de brincadeira
mando a real
pensar no amanhã é besteira
e me faz mal
porque o amanhã nunca se sabe
se a gente vai estar vivo
ou se vai ser muito tarde
eu só preciso saber que eu vivi a vida
e não morri antes do tempo
por não ser 'bem vista'
que se foda
eu quero mais é gozar em paz
e na verdade, quem se importa com o que você faz?
só quem não faz
é, e morre de desgosto
e nenhum de nós precisa de mais um encosto



Então vem,
não perde seu tempo com ninguém
que não te faça se sentir um rei
na selva de pedra
cidade vida caótica, amor é promessa
(2X)


Signo que bate consigo, lua com lua se paga
Estou vivendo um mar de rosas em plena estrada
Sendo levada por esse cio flutuante
Amizade é compromisso e o amor é uma constante
Somos feitos transparentes de pele e de brasa
sangue correndo, eu sinto a vida quando ela passa
A sensação tão intrigante e diferente de cara
Não é paixão, é muito bom pra ser medido em palavras

E não tem regra, não tem tabu, não tem promessa
A brincadeira é livre e entra quem interessa
Caça ou caçado, carrasco ou prisioneiro
quem vive sem coleira não precisa ter medo
Eu alço vôo e vejo tudo muito de cima
a cidade entediante e suas ruas vazias
gente que mente, que brinca, que não tem graça
eu vejo além das pessoas e ouço além das palavras
Gente indecente que não respeita nem a si mesmo
eu vou pensando em amor e nego pensa em dinheiro
e isso me livra e me liberta da humanidade
não tenho jaulas, algemas, ninguém me prende a verdades
Quando eu te vejo eu sinto aquilo tudo de cara
e eu vou pensando que a felicidade é mesmo de graça
E quanto mais se tem, mais se dá e mais se espalha
É a anarquia do sentimento sem amarras.


Então vem,
não perde seu tempo com ninguém
que não te faça se sentir um rei
na selva de pedra
cidade vida caótica, amor é promessa
(2X)




Isa Blue

terça-feira, 20 de março de 2012

O Choro do Sertão

Agora você pode compartilhar essa postagem também nas redes sociais. E também adicionei um contador de visitas ali ao lado. Devagarzinho vamos deixando o blog mais legal. Fique sempre à vontade para sugerir coisas novas. 

(pintura "Lavadeiras" de Carybé)




O poema de hoje tem uma história bem-sucedida. Eu tinha emprestado meu caderno para uma amiga copiar a matéria e ela ficou de me devolver outro dia. Então ela estava no ônibus indo para a escola quando sentou um senhor ao lado dela e  começaram a conversar sobre poesia. Como todos meus livros e cadernos tinham desenhos e poemas, ela mostrou meu poema para este senhor, que imediatamente pediu para gravá-lo. Era hobby dele declamar poemas e gravá-los em K7. Ela me passou o telefone dele, nos falamos, e ele acabou gravando este poema junto com outros dele e do pai dele e me deu uma cópia da fita. Claro que eu não faço a menor ideia de onde este material se encontra. Mas foi meu primeiro poema que teve algum reconhecimento além de parentes, amigos e professores. Preferi transferi-lo pra cá do mesmo jeito que o escrevi, aos 17 anos.



O CHORO DO SERTÃO

Lágrimas fechadas, zeladas com pesares
As águas amargas do choro dos humildes
Nas costas dos covardes, capitalistas, assassinos!
O caminho do pecado, o rastro de sangue
Das mágoas correndo pela vala de terra
Levando a cada gota a realidade e a dor.

Choro do povo sofrido, do corpo ferido, do pé no chão
Choro da fome que sobressai nos gritos agudos da escuridão
O massacre dos homens de terno contra os de chinelo
Levando a lembrança da comunidade no peito do bem-te-vi amarelo.

Cantando, o riacho desanda, assobia no resto de mata
A mata amarelo-amarronzada, a cor da pele do povo
Lavando a roupa suja e o corpo suado no riacho
O esforço pesado, o martelo, a pá, o sol forte, o calo na mão
O corpo curvado, o reumatismo sem trato, o tuberculoso
O trabalho escravo, semi-escravo, sempre alvo.

Choro dos inocentes, da parte miserável da população
Choro das mães desesperadas vendo seus filhos morrendo de desnutrição
O elo que liga os senhores de capital com o inferno da exploração
Tudo isso que o riacho leva lavando a vida lá no sertão.


Isa Blue
13-08-2003